O filósofo dizia que só os homens faziam
o importante,
enquanto os animais só
dispunham de
ações insignificantes.
Foi então que
chegou o tigre e devorou
o filósofo,
comprovando com os dentes
a teoria
anteriormente apresentada.
— Gonçalo M.
Tavares, O Senhor Brecht
Monk,
de Thelonious Monk, nosso cachorro, carinhosamente chamado de Monkinho — nos últimos três meses, quando acometido de dores na perninha
traseira, chamado também de Mankinho — não suportou os muitos
sintomas dos muitos problemas de saúde não identificados pelos veterinários e
se foi, hoje, no dia em que o tempo passou de quarenta pra vinte graus, que o
sol ubíquo em mais de vinte dias deu lugar ao cinza e ao vento com chuva.
Monkinho não tinha nem quarenta dias quando lá em
casa chegou. Era um filhote minúsculo, menor, eu acho, do que a maior parte dos
filhotes. Era minúsculo e acuado, arisco e silencioso. Depois se soltou, aprendeu a ficar de pé, a deitar e a ir pra rua quando mandávamos. Sabia
escutar e não reclamar como poucas pessoas, alegrava-se com o mínimo e em menos
de um ano de vida mudou a rotina e o clima da casa de pessoas humanas e
racionais que, confesso, não escutam e reclamam demais.
Deleuze
não gostava de gatos e cães. Em certo sentido, quando transformados em
bichinhos de pelúcia, isto é, excessivamente familiares, sem nenhuma autonomia
e tratados como bens pelos humanos, eu também não gosto. “O que fazia Deleuze detestar cães
e gatos não era serem cães ou gatos, mas serem demasiado humanos”, diz
um texto sobre o filósofo.
Intrigado, busquei um pouco mais: Deleuze se “admirava de como as pessoas podiam falar com seus animais. No fundo, era a humanização dos animais que Deleuze odiava. A fala humana, o gracejo familiar, obliteravam uma potência qualquer – e um animal despotenciado é tão odioso quanto o homem, justamente porque é demasiado parecido com ele.”
Ora,
nesse momento em que escrevo, não consigo, ainda, entender como (tratando do
prosaico dia-a-dia e não da teoria e potência humana) um homem não hipócrita, bom ouvinte e não reclamão possa ser tão
odioso. Obviamente não saberíamos o que seria de um cão se tivesse o aparato cerebral
que temos, tampouco se tudo o que projetamos neles tem algum fundamento.
Pois sim, ele nos escuta? O que se passa na cabeça de um cão enquanto falamos? Isso na verdade importa, quando não temos idéia do que se passa na cabeça das pessoas enquanto falamos? Elas nos escutam?
Projetamos
nossas expectativas nos seres, sejam pessoas sejam cães. A relação
humano-humano é complexa e bonita, mas também é muito hipócrita e tendenciosa.
A relação humano-animal (mesmo o domesticado, mesmo um cão corrompido com o
temperamento humano) também é complexa e, por que não, bonita, já que como a
relação humano-humano envolve projeções e cumplicidade, só que menos hipocrisia
e jogos de interesse?
Não que a
relação humano-animal seja melhor ou mais eminente e pura. Não idealizo uma
relação platônica com os cães, eles não são livres de maldade e outros desvios,
embora a maldade seja levada por características biológicas intrínsecas e não
por vontade consciente. O que reconheço agora, e só isso, depois que deixei me
envolver por um desses seres, é um clichê: eles têm muito a oferecer em matéria
de reflexão sobre racionalidade, desinteresse e generosidade.
Temos
relações de humanos com os animais, contudo, temos também relações de animais com
os animais. Se o homem humaniza o animal, o animal animaliza o homem ou, no
caso do animal doméstico, humaniza-o com certas características humanas?
Deleuze
se fosse vivo, se improvavelmente aprendesse português e se por um acidente
tremendo lesse esse texto, certamente veria isso tudo como uma enorme baboseira. Escrevo no calor do momento e, embora mais tarde possa me sentir ridículo, agora Deleuze não me interessa nem um pouco.