segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Hotel Garopaba


São 21:59h e estou sentado junto a uma mesa colada à parede, apenas de cueca, no hotel Garopaba. Cheguei até aqui por uma combinação de frustrações, ansiedades e pulsões hesitantes. O quarto é simples — se encaixa na categoria dos sem condicionadores de ar —, possui três camas de solteiro, banheiro com lavabo, frigobar e esta mesa. A televisão dá acesso a três canais e o mais nítido é o SBT — um canal cujos cenários me remetem à atmosfera fechada e úmida dos programas ao estilo “Chaves”. O ventilador de teto gira na velocidade única e máxima inundando o quarto de um vento quase morno e de um som constante com periódicos estalinhos do seu rebolado. Há uma única lâmpada afixada na parede, o que deixa o lugar com uma luminosidade frouxa, quase como se à luz de velas. Juntei duas camas de solteiro, fazendo uma de casal, e tentei dormir, mas não consegui.

Este é o ideal romântico do que se imagina ser a rotina ou os métodos de um escritor: isolar-se em um hotel e, distante e anônimo, pôr-se a escrever. Não é o meu caso, embora já tenha devaneado muito com isso, não sou escritor e hoje escrevo por falta de sono e companhia.

Os meus planos desde que cheguei, há cerca de duas horas e meia, foram mutantes e incertos. Fui até o Althoff supermercados e fiz algumas compras — quatro long necks de Budweiser, um sanduíche, uma fatia de pizza (grossa, dura, horrível), chips, M & M, suco de laranja — pensando em comer algo e beber uma cerveja pra depois sair e dar uma volta pela cidade apinhada de turistas, mas o cansaço foi maior, afinal, acordei duas e meia da madrugada pra levar uma parente ao aeroporto, retornando só depois de o avião levantar voo, às cinco e quinze, e acordando às oito. Por isso, bebi uma só cerveja — uma só, aliás, foi o que a sobrecarregada moça do mercado me cobrou (dessa vez a ética ficou de lado porque estou com pouco dinheiro) — e deitei, não sem antes enviar uma mensagem de texto para um ex-professor que mora metade do ano aqui (ele não respondeu).

Imagino que, realmente, durando uns dias, a estadia solitária em um hotel pode gerar boas reflexões. No entanto, em uma noite, e com a cabeça e os pensamentos de um fugitivo, a coisa não funciona (vide esse texto, que até teve combinações razoáveis em seu início e agora vai ficando comprometido pela aparição de parênteses justificatórios como este).

São no mínimo quatro meses de convulsões e becos sem saídas. São meses nos quais impera uma falta de paciência agressiva alternada ao desespero de ver tudo ruindo e não conseguir consertar nada. Foi o que me trouxe até aqui — e deve ser o que faz muitos homens, não falo dos entediados pelo casamento, vagar por aí. É o que me amedronta sobre o dia de amanhã e o decorrer da semana.

À minha esquerda a janela entreaberta deixa ver, depois do vão do pátio interno, o peitoril de madeira no corredor dos quartos desse segundo andar. Não vejo outra coisa senão esse peitoril e um extintor afixado na parede. Voltado para dentro espio o interior do hotel por uma fresta, voltado para dentro não vejo um horizonte que suscite alguma possibilidade. A relação barata é um sintoma óbvio e agora inevitável.

*

Durmo relativamente bem. Dez pras sete abro os olhos e o coração é acometido por um leve e breve surto de palpitações — sensação de que algo, que não sei o que é, tivesse mudado enquanto dormi. Cochilo até sete e dez e então levanto. O hotel ocupa duas quadras, de modo que desço as escadas e atravesso a rua para chegar à recepção. Café da manhã só às oito, diz um rapaz vestindo a camiseta de uma marca de surfe no balcão. Volto ao quarto, pego meus óculos de sol. Atravesso a rua novamente e contorno o hotel pelo lado esquerdo, passando pelas sacadas térreas com seus condicionadores de ar a todo vapor e latas de cerveja vazias empilhadas pelos cantos. Alguns passos depois, estou na pracinha. Pessoas de meia idade, talvez o perfil majoritário dos turistas que procuram Garopaba, e não as vizinhas jovens e barulhentas praias do Rosa e Ferrugem, caminham e se exercitam na academia ao ar livre da praça. Vejo o mar repleto de barcos e os pescadores trabalhando na orla. Observo os restaurantes rustic-chique e penso em como se vira essa gente dependente de uma sazonalidade tão pronunciada. Pego a direita e subo o morro contíguo à igreja velha, um cachorro dorme enrodilhado junto ao paralelepípedo e sequer se move quando uma moto barulhenta sobe a ladeira. Em seguida desço uma escada colada a uma residência e chego à servidão, na borda direita da baía. Paro em um deque. Foi num desses apartamentinhos no declive entre a rua e o mar o lugar em que viveu Daniel Galera e seu personagem em Barba Ensopada de Sangue. Ao lado do deque há uma escada de cimento que desce até uma pedra quase ao nível do mar. Desço e sento ali, na base da escada, olhando a baía, os galpões de pescadores e as montanhas verdes que vão ficando opacas, quase dissolvidas na atmosfera, na direção do Siriú e Gamboa. Está ensolarado e pode-se antever outro dia tórrido, mas ainda é fresco. Incomodado por encher os olhos com toda essa paisagem, mas sem conseguir possuí-la ou assimilá-la, lembro de John Ruskin e Gonçalo Tavares. Ruskin sugeria o desenho como forma de aguçar o olhar, uma vez que o desenho obriga atenção e reconhecimento dos elementos constituintes de algo. O ato de desenhar, a velocidade do olhar exigida para tal, nos tiraria de uma espécie de reconhecimento superficial do mundo ao nos proporcionar uma identificação aprofundada de seus elementos. Assim, mergulhado no mais próximo do que poderia ser a verdade de algo, desenhar seria também uma das formas de posse dessa beleza. Ambos os fatos conduziriam à percepção e valorização da riqueza do mundo. Olhando o mar e a quantidade infinita de elementos inapreensíveis, chego a esmorecer. Pintar com palavras um lugar assim complexo levaria tempo, estudo, atenção. Teria que treinar o olhar, diminuir seu ritmo diante das coisas, como quer Gonçalo, conter a velocidade do olhar acostumado a desviar-se tão facilmente, o olhar superficial e distraído de um clicador de links em busca de novidades. Galera captou bons momentos de Garopaba, inclusive deu forma a uma das visões que me deixou desarmado nesta manhã: o reflexo do sol na água: “(...) o sol se refrata na superfície em lascas brancas crepitando numa revoada inapreensível de padrões geométricos.” Eu, contudo, não tenho (e também não me dou) o tempo para o desenho, fosse ele feio ou amador, retorno ao hotel, na vila histórica, para o café.

As amplas janelas térreas que dão de frente para pracinha e para o mar estão abertas e vejo um senhor solitário comendo uma fatia de melão com garfo e faca. Vejo isso ainda da rua, enquanto percorro a lateral do hotel. Ao entrar na recepção meneio a cabeça para o atendente — buscando a confirmação de que o café está servido — e ele retribui automaticamente. São cinco para às oito. Deposito óculos e celular em uma das mesas para cinco lugares à janela. Tenho a pracinha, a rua de paralelepípedos, o mar, os barcos à minha frente. O senhor solitário acabou seu melão, mas ainda está ali fitando a rua. Estamos apenas nós dois, somos os únicos comensais — é inevitável não especular sobre aquele homem, se teria apenas acordado antes do que a esposa ou se seria um viúvo aposentado em busca de companhia, se está ali há muitos dias ou se chegou há pouco. De resto, escuto as cozinheiras e empregadas conversarem sobre um parente de alguma delas, de Laguna, e elas riem alto e dão instruções umas às outras sobre os preparativos do café. Um outro funcionário do hotel se desloca da cozinha, senta-se numa mesa próxima e põe-se a observar a rua como o velho solitário. Parece nostálgico e um pouco entediado. É inevitável não especular. Em pouco tempo crio uma teia de sentido entre esses três homens que olham pela janela. Somos quase companheiros. Talvez eu precise partilhar algum sentido pra substituir a religião, há muito abjurada, e esse sentido seja tão ilusório quanto o da própria religião. De qualquer forma, isso deve ser comum.[1] Meu primeiro prato tem um pão d’água, salsichas com molho e omelete. Bebo um suco de laranja e um café. Como rápido e me sirvo com uma fatia de nega maluca, um bolinho de chuva salpicado de açúcar e canela e outro pão (esse integral) com presunto e queijo. As pessoas começam a chegar. Famílias com filhos na adolescência e pré-adolescência. Sobretudo gaúchos com garrafas de água quente e cuias de chimarrão. Não faltará mesas no restaurante espaçoso e agradável com seus lustres e janelas abertas para o ar fresco do início da manhã. Estou mastigando o bolinho de chuva e vejo uma viatura contornar a praça e passar lentamente em frente às janelas. Uma policial dirige e ela e seu parceiro viram os pescoços e observam a nós ali dentro. Fico um pouco perplexo com a beleza da mulher, cabelos longos e óculos de sol, que é mais bela do que tudo por que não há tempo de vê-la direito. Esse mistério toma conta do restante do café e minutos depois, ao ver novamente a viatura, pela mesma janela, conjecturo bobagens ridículas. Pego um iogurte para terminar. A maioria dos hospedes dá a impressão de frugalidade exagerada com relação à comida, muitas mulheres comem só frutas, embora seus filhos pré-adolescentes sejam como eu. À minha esquerda há uma família gaúcha de quatro pessoas. A mulher serve o marido, que fica ali sentado esperando. Vejo outra mulher fazer o mesmo e não consigo evitar a sensação de que aquilo é um pouco idiota. O marido da esquerda, enquanto come o que foi trazido, roça de leve os dedos no braço da esposa. São pessoas de bem com a vida.

Acabada a refeição vejo que o senhor idoso, que chegara antes de mim e saíra, está de volta, na mesma mesa, agora com uma câmera fotográfica à sua frente. Ele contempla a vista da janela como antes. Levanto e saio sem pressa. Exploro brevemente as salas compartilhadas do hotel com televisões, revistas, jornais e mesas de centro. Atravesso a rua e volto ao quarto. Logo estou descalço e sem camisa caminhando na beira do mar. A praia encheu. Não há vento e as ondas devem ter algo em torno de dez centímetros. Em nenhum momento me sinto acuado ou deslocado por estar sozinho. Pelo contrário. Como diz o filósofo pop Alain de Botton, viajar sozinho pode ser uma vantagem: “Nossa reação ao mundo é decisivamente moldada pelas pessoas que nos acompanham, trabalhamos nossa curiosidade para nos adaptarmos às expectativas de outros. Eles podem ter uma visão específica a nosso respeito, impedindo sutilmente que se manifestem certos aspectos de nossa personalidade.” Os outros podem nos inibir pela simples sensação reflexiva de observação, o que pode ter como consequência um comportamento, até inconsciente, de se moldar àquele olhar (o que torna mais paradoxal ainda a busca por atenção e observação alheia o tempo todo). Caminho com vagar, sendo ultrapassado pelos que, de tênis ou roupas de academia, se exercitam na areia. Sinto a água nos pés. O sol refletido no mar ofusca a vista. Num trecho depois do camping Lagoa Mar vejo casas luxuosas com paliçadas no barranco que as eleva a um metro acima da areia da praia. Não há cercas nessas casas e a maioria delas possui gramados e árvores enormes cujas sombras estão habitadas por pirralhos sonolentos que tomam Nescau sentados em espreguiçadeiras.

Wordsworth acusava as cidades de estimularem emoções negativas — angustia quanto posições sociais, inveja, pressa onipresente etc., daí que esses sentimentos surtiriam efeitos perversos sobre os sujeitos. A solução, para o poeta, era o contato com a natureza. Tal contato serviria de contraponto ao caos urbano e imbuiria certa resistência à competição, inveja e ansiedade — para os não religiosos, acrescento, pode ser a oportunidade para livrar-se da busca quase involuntária por sentidos sociais compartilhados e o relaxamento da autoconsciência. Não sei se isso é inerente às cidades, ou se Wordsworth se referia a qualquer agrupamento humano, mas uma coisa me parece certa: o contato ininterrupto com um mesmo ambiente — e suas pessoas — embota a visão e tende a reduzir os limites do que se tem como possível. Viajar, nesse sentido, areja nosso mundo. No meu caso em particular, aqui, o mar — indiferente a mim — traz uma agradável sensação de que a gravidade dos meus problemas é exagerada, de que os limites do que posso ou não fazer sofrem pressão direta do lugar em que vivo. Viajar, sair, não para fugir — também não para erradicar problemas, o que é um pouco ingênuo, mas para encontrar-se com um eu que só emerge quando os estímulos são outros — viajar, sair, para se encontrar.




[1] Em um ônibus, consultório de dentista ou no auditório de uma palestra uma simples troca de olhares pode forjar toda uma fantasia mental em que crio laços imaginários de cumplicidade com pessoas, sobretudo mulheres, que certamente estão pensando no que comerão no almoço ou no quanto precisam de um novo emprego. Criada a relação imaginária, às vezes acredito estar sendo detalhadamente observado e passo a agir de acordo com aquelas expectativas (expectativas inventadas por mim), e me decepciono profundamente quando o ônibus para ou a palestra acaba e a pessoa sai sem nem olhar para o lado, como se nada tivesse acontecido. Tudo é muito pior quando estou ouvindo música com meus fones, já que a música me transporta para uma espécie de personagem de vídeo clipe ou cena de filme. Acho que tendemos à fabulação de um enredo que nos ponha no centro, sempre. Criar um vínculo imaginário a partir de um ou dois olhares, mais do que a tentativa natural partilhar um momento, e mais do que simples carência, é um anseio de colocar-se como algo importante para alguém de forma a reconhecer-se no mundo, daí a sensação (o desejo) de que se está sendo observado. Deus é onipresente e nos observa, acreditam os religiosos. Já os laicos inventaram reality shows, redes sociais e outros artifícios para se sentirem observados. Ambos, religiosos e laicos, parecem precisar da sensação de que estão sendo observados para sentir-se caros e para o que o mundo faça sentido.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Paralaxe



O mais curioso nos aspectos superiores da consciência é a notável ausência de um maestro antes de a execução ter início, embora surja um regente conforme a execução acontece. Para todos os efeitos, o maestro passa então a reger a orquestra,  ainda que a execução tenha criado o maestro — o self —, e não o contrário. — Antônio Damásio.

2.
Paro de repente, sem pensar. Vejo o mato pardo e seco do pó levantado pelos carros aderido às plantas, ao mato, às árvores. Mais além, uma viçosa roça de fumo num terreno bojudo com uma pessoa de chapéu no meio. Vejo a estrada estreita, postes de madeira vergados com fiação desgrenhada, alguns tão oblíquos que causam mal-estar. A irrupção súbita de um caminhão arrasta uma nuvem de poeira fazendo a visibilidade desaparecer por alguns segundos.

3.
Quando, comigo mesmo, avento a possibilidade consciente de evocar algo da memória, algo aleatório – penso, vou lembrar algo esquisito agora – surge espontaneamente um leque mais ou menos curto de opções na mente. Nesse instante uma pré-escolha já foi executada, não por mim. A minha mente fornece opções. Como poderia o eu-consciente buscar por algo catalogado por uma subjetividade que de repente já é outra?

4.
Ligo o carro e sigo em frente, sigo procurando um lugar adequado para mijar. A estrada de chão é infestada de curvas e buracos e mantenho os vidros fechados apesar do calor.

5.
Decido: eu quero me lembrar de uma coisa esquisita e por aí meu poder de decisão fica limitado. Pode, também, esse limite valer para o meu próprio poder de decisão inicial? Quem, afinal, decidiu o quê?

6.
O que me vem à cabeça enquanto dirijo tem a mesma linearidade de um sonho, quase a mesma autonomia. Tudo se vem e se vai sem meu consentimento. Sou muito mais expectador.

6.1.
Ideias e lembranças que mexem com o meu humor e que depois de lembradas talvez persistam por trás das cortinas, o que as desencadeia, o formato de uma nuvem, a disposição com que se revolve a poeira observada pelo retrovisor, uma reação química no cérebro?

6.1.2
Déjà-vus não percebidos?

7.
Chegando à cidade, compro lixo em embalagem colorida ou, como alguns gostam de dizer, macarrão instantâneo. Pego também algumas cervejas e vejo alguém acenar da fila de um dos caixas quase na outra ponta do mercado. É um conhecido. Receptivo e otimista, ele chega a melhorar o meu humor pelo tempo de uma convoluta baforada de cigarro. Enquanto a caixa passa os produtos dele conversamos qualquer coisa dessas que as pessoas conversam quando se encontram numa fila de mercado. Ele pergunta se estou a pé, se quero uma carona. Agradeço e por cortesia protocolar dizemos que temos de combinar um jantar ou um churrasco. Coisas dessas que sempre se diz e nunca se faz, mas se continua a dizer.

8.
Fico um tempo no estacionamento do mercado mexendo no celular. Leio anotações catadas a esmo, estocadas para servirem de lembrete ou por algum motivo que me é desconhecido no momento em que as leio. A primeira delas é o título de uma revista pornográfica em que bati os olhos na banca, e anotei pela graça: sentando na ripa; a segunda: bancorbras; a terceira: realismo histérico; quarta: rembetika music; quinta: locus gênico; sexta: documentário Bob Marley; sétima: domesticação do pensamento: ir contra. Oitava:

O fim. O começo

9.
Anoto um fragmento incompleto com a intenção de que a mente concatene tudo e forme o raciocínio inteiro no momento da releitura; mas o momento da releitura é outro, as condições e o estado das ideias são diversos. O fragmento acaba por parecer algo intrigante e até indecifrável, quem sabe escrito por outro. Assim, arruma novos meios e diferentes atribuições de significado.

10.
Por meio segundo pressinto ter um insight brilhante: penso nas pessoas também como fragmentos – fragmentos provisórios de sentimentos e afetos, em vários matizes, de referências, misturadas, desconhecidas, incompletas, de desejos, irracionais e influenciáveis, de esperanças, que vêm e vão e fazem e se desfazem, penso nas pessoas como um compêndio dialético de pulsões que se alternam. Dura apenas meio segundo, logo subestimo tudo.

11.
Lembro de um trecho do Gonçalo relido mais cedo: “Se o pensar agora é igual ao pensado, então tal não é pensar, é imitar. ‘Tu não pensas, imitas’. Eis um insulto desagradável.”

12.
Bato na porta com o nó dos dedos indicador e médio pela segunda vez. Eu sei que há alguém em casa e sei que esse alguém está a par da minha presença. A madeira da porta é trabalhada, um círculo central pequeno se irradiando em círculos maiores como as espirais de uma pedra atirada nas águas de um lago calmo.  Me concentro no olho mágico e bato pela terceira vez, agora mais forte. Os dizeres “bem-vindo” no capacho indiferentes a quem chega, de ponta cabeça, talvez dando as boas vindas a quem sai de dentro para fora: bem-vindo à rua.

13.
Aproximando-se de Nietzsche (que antecipa o inconsciente freudiano), a consciência é um subproduto ínfimo da psique. Há quem utilize uma metáfora que explicaria isso melhor: a psique, o todo do que corre por nossa cabeça, é como o mar. Já o que vem à consciência é apenas o foco de luz de um farol iluminando esse mar. Isto é, a consciência seria aquela circunferência iluminada a cada instante, uma bola de luz clareando um recorte do mar. Reconheceríamos, portanto, esse recorte, prescindo do resto do oceano, que seria iluminado apenas na medida em que o feixe de luz incidisse sobre ele.

13.1
Quem movimentaria o farol, no entanto?
Se somos a consciência que reconhece o local iluminado; poderíamos ser também o faroleiro, aquele que decide o ponto a iluminar?

13.2
Diz o Antônio Damásio, em O Cérebro Criou o Homem: “A mente é um resultado muito natural da evolução e, em vasta medida, é não consciente, interna e não revelada. Vem a ser conhecida graças à exígua janela da consciência. É precisamente meu modo de pensar.”

15.
Desisto da porta e volto ao carro. Escurece. Sigo em direção ao norte onde relâmpagos mudos racham o céu. Escancaro as quatro janelas e um vento morno invade até meu cérebro, ao som da crepitância dos pneus no asfalto grosseiro em construção.

16. 
A que direções estamos sujeitos? Talvez a poucas. As construções de moldes, diretrizes, visões, sonhos, manipulações éticas, algo como uma homeostase sociocultural para equilíbrio dos seres dentro de determinados parâmetros, pode tornar tudo bem mais previsível.

17.
Constatações de extraordinárias possibilidades latentes podem ficar apenas nas constatações. É quando a existência ou o pressentimento de uma potência é o suficiente, quando a masturbação substitui o sexo ou a ideia do sexo basta.

18.
Uma carreata de ciganos conflui lentamente para uma estrada marginal de terra à direita da pista. Sinto várias atmosferas de ocasiões já vividas, sinto essas atmosferas mais próximas, que paradoxo, mais próximas do que quando as vivi e elas se entrecortam e se esbarram e paro o carro e vejo os ciganos em carros velhos com os faróis de alerta piscando as atmosferas pululando na minha cabeça as ceias de natal os dias de carnaval as tardes solitárias deitado no tapete do quarto ouvindo músicas e a certeza de que algo grande iria acontecer no futuro e o cheiro salgado do mar nos dias de sol e nos dias em que trabalhava numa sala abafada longe do mar sonhando com o mar e os ciganos descendo dos carros e gesticulando na minha direção umas bolhas que mesclam o primeiro beijo com a imagem de uma surra que deixou marcas de cinto nas pernas e a morte vista de perto um parente num caixão com moedas de vinte e cinco centavos sobre os olhos para mantê-los fechados os sonhos com aquilo o pó em  câmera lenta cruzando um feixe de sol no meio de uma tarde preguiçosa e o baile de debutantes quando dois ciganos se aproximam e um deles dá boa noite e diz pra eu sair do carro e eu saio e eles começam a rir e umas mulheres gritam da carreata e os dois ciganos mandam eu virar de costas e eu viro de frente pra janela traseira do carro e vejo as sacolas compradas no mercado através dos vidros abertos as cervejas a comida onde tu pensa que vai dizem e riem e as mulheres da carreata gritam e eu me viro do nada e olho pros dois.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Monk


O filósofo dizia que só os homens faziam
o importante, enquanto os animais só
dispunham de ações insignificantes.

Foi então que chegou o tigre e devorou
o filósofo, comprovando com os dentes
a teoria anteriormente apresentada.
— Gonçalo M. Tavares, O Senhor Brecht

Monk, de Thelonious Monk, nosso cachorro, carinhosamente chamado de Monkinho nos últimos três meses, quando acometido de dores na perninha traseira, chamado também de Mankinho — não suportou os muitos sintomas dos muitos problemas de saúde não identificados pelos veterinários e se foi, hoje, no dia em que o tempo passou de quarenta pra vinte graus, que o sol ubíquo em mais de vinte dias deu lugar ao cinza e ao vento com chuva.

Monkinho não tinha nem quarenta dias quando lá em casa chegou. Era um filhote minúsculo, menor, eu acho, do que a maior parte dos filhotes. Era minúsculo e acuado, arisco e silencioso. Depois se soltou, aprendeu a ficar de pé, a deitar e a ir pra rua quando mandávamos. Sabia escutar e não reclamar como poucas pessoas, alegrava-se com o mínimo e em menos de um ano de vida mudou a rotina e o clima da casa de pessoas humanas e racionais que, confesso, não escutam e reclamam demais.

Deleuze não gostava de gatos e cães. Em certo sentido, quando transformados em bichinhos de pelúcia, isto é, excessivamente familiares, sem nenhuma autonomia e tratados como bens pelos humanos, eu também não gosto. “O que fazia Deleuze detestar cães e gatos não era serem cães ou gatos, mas serem demasiado humanos”, diz um texto sobre o filósofo. 

Intrigado, busquei um pouco mais: Deleuze se “admirava de como as pessoas podiam falar com seus animais. No fundo, era a humanização dos animais que Deleuze odiava. A fala humana, o gracejo familiar, obliteravam uma potência qualquer – e um animal despotenciado é tão odioso quanto o homem, justamente porque é demasiado parecido com ele.”

Ora, nesse momento em que escrevo, não consigo, ainda, entender como (tratando do prosaico dia-a-dia e não da teoria e potência humana) um homem não hipócrita, bom ouvinte e não reclamão possa ser tão odioso. Obviamente não saberíamos o que seria de um cão se tivesse o aparato cerebral que temos, tampouco se tudo o que projetamos neles tem algum fundamento.

Pois sim, ele nos escuta? O que se passa na cabeça de um cão enquanto falamos? Isso na verdade importa, quando não temos idéia do que se passa na cabeça das pessoas enquanto falamos? Elas nos escutam?

Projetamos nossas expectativas nos seres, sejam pessoas sejam cães. A relação humano-humano é complexa e bonita, mas também é muito hipócrita e tendenciosa. A relação humano-animal (mesmo o domesticado, mesmo um cão corrompido com o temperamento humano) também é complexa e, por que não, bonita, já que como a relação humano-humano envolve projeções e cumplicidade, só que menos hipocrisia e jogos de interesse?

Não que a relação humano-animal seja melhor ou mais eminente e pura. Não idealizo uma relação platônica com os cães, eles não são livres de maldade e outros desvios, embora a maldade seja levada por características biológicas intrínsecas e não por vontade consciente. O que reconheço agora, e só isso, depois que deixei me envolver por um desses seres, é um clichê: eles têm muito a oferecer em matéria de reflexão sobre racionalidade, desinteresse e generosidade.

Temos relações de humanos com os animais, contudo, temos também relações de animais com os animais. Se o homem humaniza o animal, o animal animaliza o homem ou, no caso do animal doméstico, humaniza-o com certas características humanas?

Deleuze se fosse vivo, se improvavelmente aprendesse português e se por um acidente tremendo lesse esse texto, certamente veria isso tudo como uma enorme baboseira. Escrevo no  calor  do momento e, embora mais tarde possa me sentir ridículo, agora Deleuze não me interessa nem um pouco. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Notas sobre o modo como vivemos hoje



Como seria a humanidade se não precisássemos ter que nos preocuparmos com o ganha pão, com a labuta diária por um padrão de vida? O que fariam o homem e a mulher se não precisassem pensar em produção, vendas, metas, horários – se tivessem os dias à sua disposição?

Certamente nos depararíamos com o fundamental: o que fazer com o tempo?

O fato de que a humanidade, que criou tanto progresso e melhorias no ambiente físico (embora o destrua sem dó), tenha também criado um universo de valores materiais que a afasta do fundamental enquanto teria condições, se assim quisesse, de fazer o contrário, é sintomático para pensar sobre o quanto a questão de o que fazer com o tempo é assustadora e desnorteante para nós, humanos.

O desejo de mais quando talvez já se tenha o suficiente é o que move nosso mundo. Crescer é um imperativo: se o PIB do ano atual superou em apenas 2% o do ano anterior, há algo de errado; se as vendas deste ano foram em 3% maiores que a do ano passado, uma empresa pode ser vista como estagnada – suas ações cairão no mercado, seus acionistas se descabelarão.

Fazemos uma pós-graduação porque uma graduação já não é grande coisa quando se concorre com outros candidatos. Fazemos um curso de inglês para crescer profissionalmente. Inglês é a língua universal, dizem, abre portas. Mas de repente, influenciados pelos noticiários, optamos por mandarim, a língua falada no país que se espera ser a grande potência do futuro – pode ser uma vantagem sobre os outros.

Assim passamos grande parte do nosso tempo, nos tornando capital humano. Assim nos colocamos melhor no mercado de trabalho.

Mercado significa “reunião de negociantes em lugar público”; “lugar teórico onde se processam a oferta e a procura de determinado produto ou serviço”.  O mercado de trabalho, portanto, é o lugar onde se processam a oferta e procura de trabalhadores. Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, esse movimento acaba por gerar um processo de comodificação, isto é, acaba por nos transformar também em meras mercadorias.

Quanto mais sofisticados, quer dizer, quanto mais qualificados, mais atrativos nos tornamos. Quanto mais atrativos, maiores os salários – e é natural que, precisando viver, busquemos ser mais atrativos que os outros.

Quanto maiores os salários, maior o poder de consumo. Quanto maior o consumo, maior o conforto, dizem. Consumindo mais, todavia, menor o tempo necessário a ser despendido com o que fazer com o tempo que temos sobre a terra. Não é de estranhar que algumas pessoas gostem de visitar shoppings quando estão desalentadas: o consumo tende a causar bem-estar imediato, distanciar o problema. (É uma coincidência curiosa umas das acepções da palavra droga ser: “qualquer substância que leve a um estado satisfatório ou desejável”).

A questão de o que fazer com o tempo pode deixar pessoas doentes. E mais, não é de chamar atenção alguém que por perder o emprego, mesmo não precisando de dinheiro para sobreviver, sinta-se inferior, ansiosa, humilhada, não vendo sentido na vida? 

Nunca se considerou tão fundamental trabalhar. Ou melhor, “nunca se considerou tão humilhante a ideia de não trabalhar”, afirma o economista André Lara Resende, em seu livro de ensaios “Os limites do possível”. Uma série de pressões e convenções sociais subestima aquele que não trabalha ou não ambiciona fazer uma pós-graduação, por exemplo, para se tornar mais atrativo no mercado de trabalho. A pessoa que não trabalha ou que não pensa nesses termos, desse modo, tende a entender que faz algo errado e daí é um passo para se sentir infeliz.

Da mesma forma, a pessoa que não consome como se espera que consuma, como os padrões vigentes impõem, torna-se, de certa forma, como evidencia Bauman, excluída ou não desejada. “Estar à frente da tendência de estilo transmite a promessa de um alto valor de mercado e uma profusão de demanda”. Depreende-se, por conseguinte, que é preciso consumir as últimas tendências, lançamentos da moda e de outros bens de consumo, para não correr o risco do anacronismo e, assim, obter uma espécie de sentimento de pertença. Quem nunca viu uma adolescente esperneando por um Iphone por que todas as suas amigas têm esse aparelho? Isso não seria, por acaso, um pré-requisito para aceitação?

Toda propaganda de liberdade de escolha dos dias de hoje, como se vê, tem algo de contraditório: a escolha pode ser nossa, no entanto, ela é obrigatória e, além do mais, não temos como controlar o que está disponível para escolher.

Em uma vida tão cheia de escolhas, compromissos, obrigações, metas, horários, enfim, em uma vida tão cheia de meios que se transfiguraram em fins, não deixa de ser previsível que algumas questões fundamentais nos escapem (e, claro, deixem de ser fundamentais). O preocupante, todavia, é quando a mera proposição de tais questões, embotadas pela fluidez dos engendramentos sociais, torna-se um absurdo estranhado.